Com multidão nas ruas, oposição do Egito exige renúncia de Mubarak

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A oposição aumentou a pressão nesta terça-feira (1º) para que o presidente do Egito, Hosni Mubarak, deixe o governo, ao mesmo tempo que cresce a adesão à manifestação popular que tenta reunir um milhão de pessoas nas ruas contra o governo.

Ao mesmo tempo, o rei da Jordânia anunciou uma mudança no governo do país, também depois de protestos populares.

Condição para negociar
A Irmandade Muçulmana anunciou, em nome da coalizão de grupos de oposição no Egito, que só começará a negociar quando Mubarak deixar o poder.

“Nossa primeira condição é que Mubarak saia”, diz comunicado. “Só depois disso o diálogo pode começar com o establishment militar sobre os detalhes para uma transição pacífica de poder.”

O ex-diplomata Mohamed ElBaradei, um dos principais nomes da oposição, disse em entrevista à TV Al Arabiya que Mubarak deveria deixar o país no máximo até sexta-feira, e que é necessária uma discussão ampla para definir o futuro político do país após sua saída.

Enquanto isso, crescia a multidão reunida para o ato de protesto que quer juntar um milhão de pessoas contra o regime.

Protesto é pacífico no Cairo; ouça ao lado relato de Ari Peixoto, enviado da TV Globo

O Exército, em nota oficial, disse que considera legítima as reivindicações e prometeu não reprimir os manifestantes, neste que será o oitavo dia seguido de protestos populares contra o regime que já dura 30 anos.

Vários manifestantes fizeram vigília na praça Tahrir, apesar do toque de recolher que vigora no país, e muitos chegavam. Tanques do Exército estavam nos principais acessos ao local, e helicópteros militares sobrevoavam o local.

Também foi convocada uma greve geral por tempo indeterminado, em um país praticamente já paralisado pelos protestos.

As autoridades tentam limitar os deslocamentos da população e obstruir ao máximo os contatos dos organizadores dos protestos.

O Exército fechou os acessos ao Cairo e a outras cidades onde foram convocadas passeatas.

A autoestrada que liga Alexandria ao Cairo estava bloqueada a um quilômetro da capital por um posto de controle militar.

Uma longa fila de caminhões de mercadorias e automóveis aguardava autorização para passar, mas os soldados impediam o avanço de veículos para a capital.

Quase 50 mil pessoas se reuniram diante da mesquita Qaed Ibrahim e da estação de trem, no centro de Alexandria, segunda maior cidade do Egito.

Também havia manifestações em Ismailia e cidades no delta do Nilo, como Tanta, Mansoura e Mahalla el-Kubra.

Na segunda, os trens deixaram de funcionar, e o último provedor de internet egípcio em funcionamento, o Grupo Noor, parou de operar, o que deixou o país sem acesso à rede.

Em resposta ao bloqueio à internet, a Google anunciou a criação de uma forma de acesso ao Twitter pelo telefone.

Concessões
Na véspera, Mubarak, de 82 anos, fez uma série de concessões à oposição, mas que não pareceram ter convencido.

O vice-presidente Omar Suleiman, nomeado no final de semana, foi à TV na noite de segunda pedir diálogo com todos os partidos políticos.

Suleiman afirmou ter sido incumbido pelo próprio Mubarak de levar adiante as conversas, que podem incluir alterações na Constituição do país em crise -o que era uma das reivindicações dos oposicionistas.

Também na segunda, Mubarak anunciou um novo gabinete.

Por um decreto de Mubarak, foram indicados novos ministros das Finanças e do Interior.

Outros nomes do gabinete,como o de Field Marshal Hussein Tantawi, ministro da Defesa, e o chanceler, Ahmed Aboul Gheit, foram mantidos.

A pasta do Interior foi para Mahmoud Wagdi, um oficial de polícia reformado. Ele substitui Habib el-Adly, bastante criticado pela violência com que respondeu aos protestos populares.

O canal estatal exibiu imagens dos novos ministros tomando posse ao lado do presidente.

O vice-presidente Suleiman também disse que a prioridade do novo governo é combater a pobreza, o desemprego e a corrupção.

Analistas dizem que o destino de Mubarak agora está nas mãos dos militares, no que pode ser a maior reviravolta política no país desde que o Exército depôs o rei Fahrouk, em 1952.

O presidente não se manifesta publicamente desde sexta-feira.

Quase 50 Organizações Não Governamentais (ONGs) egípcias de defesa dos direitos humanos pediram a Mubarak “que se retire do poder para evitar um banho de sangue”.

Os seis primeiros dias de protestos deixaram um saldo de mais de cem mortos e milhares de feridos, segundo várias estimativas.

As manifestações continuaram na segunda país afora, mas pacíficas, ao contrário do que ocorreu antes. Soldados assistiram a tudo sem interferir.

Bancos, a bolsa de valores e o comércio local fecharam, e o toque de recolher continuava.

Governos, companhias aéreas e operadoras de turismo agiram em conjunto para retirar estrangeiro, causando confusão no aeroporto.

Os EUA ordenaram nesta terça a saída do pessoal não essencial de sua embaixada no Cairo.

Repercussão
A chefe da diplomacia da União Europeia, Catherine Ashton, pediu na segunda ao governo Mubarak que comece “imediatamente” o diálogo com a oposição.

A Casa Branca pediu calma na segunda-feira e se disse satisfeita com a “moderação” exibida pelas forças de segurança egípicias.

O governo britânico alertou que a repressão aos protestos pode “acabar mal”, mas evitou pressionar explicitamente pela renúncia de Hosni Mubarak.

É importantíssimo que nem o presidente (dos EUA, Barack) Obama nem eu estejamos dizendo quem devem governar este ou aquele país’, disse o primeiro-ministro David Cameron à BBC.

O primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, pediu a Mubarak, uma resposta sem hesitação ao desejo de mudança expresso nos protestos da última semana.

“Escute os gritos do povo e suas reivindicações”, afirmou Erdogan, em um discurso ante os deputados de seu partido na sede do Parlamento, antes de acrescentar que pretendia “fazer uma recomendação, uma advertência sincera ao presidente Mubarak”.

País chave
O Egito, o mais populoso dos países árabes (80 milhões de habitantes), é um aliado do Ocidente na região e administra o Canal de Suez, essencial para o abastecimento de petróleo dos países desenvolvidos.

Além disso, o Egito é um dos dois países árabes (o outro é a Jordânia, que também enfrenta protestos) que assinou um tratado de paz con Israel.

O premiê israelense, Benjamin Netanyahu, mencionou o fantasma de um regime ao estilo iraniano, caso, aproveitando o caos, “um movimento islamita organizado assuma o controle do Estado”.

A rebelião no Egito vai ajudar a criar um “Oriente Médio islâmico”, disse nesta terça o chanceler iraniano Ali Akbar Salehi.

“Pelo que sei a respeito do grande povo revolucionário do Egito, que está fazendo história, tenho certeza de que vai desempenhar um papel na criação de um Oriente Médio islâmico, para todos os que buscam liberdade, justiça e independência”, declarou Salehi, segundo o portal da televisão estatal iraniana.

Suez
O Canal de Suez, eixo estratégico do comércio mundial, funcionava normalmente nesta terça apesar dos protestos, segundo a Autoridade do Canal.

O canal, que une Porto Said, no Mediterrâneo, a Suez, no Mar Vermelho, representa a terceira maior fonte de renda estrangeira do Egito.

O volume de seu tráfego é considerado indicador da saúde do comércio marítimo através do mundo.

Petróleo
A tensão regional elevou o preço do petróleo O tipo Brent, negociado em Londres, passou da barreira psicológica de US$ 100 o barril na segunda por temores de que a instabilidade possa se espalhar por países do Oriente Médio, que junto com o norte da África produz mais de um terço do petróleo no mundo.

Foi a maior cotação desde 1º de outubro de 2008.

A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) observa a situação no Egito com preocupação, mas apenas aumentará a oferta de petróleo se houver uma escassez, afirmou nesta segunda o secretário-geral do cartel, Abdullah al-Badri.

O Conselho de Segurança Nacional dos EUA está monitorando os efeitos da crise egípcia nos mercados financeiro e de petróleo, disse o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs.

Patrimônio cultural
A diretora geral da Unesco, Irina Bokova, lançou um apelo para que “se proteja o patrimônio cultural do Egito, e se respeite a liberdade de expressão”.

Em um comunicado, Bokova manifestou sua compaixão pelas vítimas do “protesto cívico”, e deplorou os mortos nas manifestações, antes de pedir que o patrimônio cultural egípcio, “símbolo da identidade nacional” e “legado ancestral da humanidade”, seja respeitado.

“Uma boa prova disse é esse cordão humano de proteção que centenas de cidadãos formaram em torno do museu para protegê-lo”, destacou Bokova, aludindo à iniciativa de jovens egípcios em relação ao Museu Egípcio do Cairo, que guarda verdadeiras relíquias da antiguidade.

Na nota, a diretora da Unesco expressa “sua preocupação com a situação da livre circulação da informação e da liberdade de imprensa” no Egito, criticando a suspensão dos acesso à internet, o bloqueio da imprensa e os espancamentos de jornalistas.

fonte: G1


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