Problema no Enem faz alunos de escola do CE viverem tema da prova de redação

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A polêmica a respeito de suposto vazamento de questões usadas no Enem, antecipadas pelo Colégio Christus, de Fortaleza, nasceu nas redes sociais um dia após a aplicação do Exame Nacional do Ensino Médio.

Com a repercussão do assunto, os alunos da escola estão vivendo na prática o que caiu na prova de redação do Enem: “Viver em rede no século 21: os limites entre o público e o privado”, um tema que propunha a reflexão sobre a comunicação nas redes sociais e suas consequências.

Conectados na internet, os estudantes perceberam como é tênue o limite entre o público e o privado. Por meio da rede social Facebook um estudante de outra escola da capital cearense divulgou imagens de uma apostila que teria sido distribuída no Christus com questões semelhantes às usadas no Enem.

No dia seguinte, o caso ganhou repercussão nacional, o Ministério da Educação acionou a Polícia Federal e o Enem foi cancelado para os 639 estudantes da escola em questão. O estudante que divulgou o fato, diante da gigantesca repercussão, decidiu retirar as fotos de sua página no Facebook.

Ele disse que não esperava tamanha repercussão e que “se expôs” muito, por isso decidiu apagar as imagens da sua conta na rede virtual.

Mãe de uma aluna do colégio, a advogada e pedagoga Íris Gadêlha Costa, disse que “nossos filhos estão destruídos, sofrendo bullying virtual”. Desde terça-feira (25), postagens de mensagens ofensivas contra os estudantes do Christus aparecem nas redes sociais.

O MEC afirmou na quarta-feira (26) que monitorou as informações sobre o caso nas redes sociais antes de tomar a decisão de anular as notas dos alunos do Christus.

Alguns posts de estudantes incluídos no Twitter no sábado (22) e domingo (23), dias das provas do Enem, sugeriam que eles já tinham tido contato com algumas questões nas apostilas do colégio.

Para educador, limite é ‘nebuloso’
Especialistas em comunicação ouvidos pelo G1 destacaram que os limites entre o público e o privado nas redes sociais, como pedia a redação do Enem, é “indefinido”.

Sandro Caramaschi, psicólogo de comunicação e relacionamento humano da Unesp, diz que a abordagem do tema da redação é sobre a invasão de privacidade e a exposição da privacidade.

“O que se pode contar, mostrar e divulgar para a população? Antigamente as pessoas eram chamadas de fofoqueiras (por falar da vida alheia) ou inadequadas (quando faziam muita exposição de suas vidas). Hoje os limites estão mais acessíveis ou mais nebulosos”, diz.

A educadora Cléo Fante, pesquisadora em violência escolar, diz que, ao contrário do que afirma a mãe de uma aluna do colégio, o que os estudantes estão sofrendo nas redes sociais não configura cyberbullying.

“O bullying em espaço físico ou virtual é caracterizado pela ausência de motivos que justifiquem os ataques”, explica a especialista. ” Neste caso, existe um motivo conhecido para as provocações, não que ele se justifique. Mas não é uma agressão gratuita.”

Preconceito
Em vários comentários alunos de outros estados brasileiros fizeram comentários preconceituosos contra os estudantes do colégio Christus e nordestinos.

“Queria jogar uma bomba nuclear no Nordeste”, diz um usuário que afirma ser de Minas Gerais. “Por causa desses cabeças chatas acontece mais uma confusão no Enem”, afirma uma garota.

Os alunos do Christus revidaram os comentários afirmando que vão se esforçar ainda mais para passar uma reputação positiva do colégio.

“Aguardem, em breve nós vamos mostrar nosso potencial dos estudantes do Ceará e vamos ter um dos melhores rendimentos no Enem”, comenta um estudante do Christus.

João Rezende, que se identifica como pai de um aluno do Christus, afirma que seus dois filhos e os colegas deles matriculados na escola que teve o Enem cancelado estão sofrendo preconceito.

“Os estudantes do Christus são os mais prejudicados e não fizeram nada para merecer tal preconceito”, defende.

O pai afirma também alunos cearenses tradicionalmente “representam bem o país” em competições acadêmicas internacionais e sempre são aprovados em concursos como IME e ITA, considerado um dos mais difíceis do Brasil.

O juiz Domingo José da Costa, que tem dois filhos matriculados no Christus e uma outra que concluiu o ensino fundamental na mesma escola, diz que recomendou a filha pré-universitária a não acessar as redes sociais nos próximos dias.

“Os comentários ferem a autoestima dos alunos. Fazem comentários inclusive contra nordestinos que são uma agressão psicológica”, afirma o pai.

A educadora Cléo Fante diz que os jovens precisam tomar lições deste caso para compreender a dimensão do uso das redes sociais.

“Falta muita orientação para crianças e adolescentes que emitem opiniões de forma privada sem terem consciência de que se torna público”, destaca a especialista, autora do livro “Fenômeno Bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para paz”.

“Uma simples postagem que seria endereçada só a quem é da comunidade do colégio pode ganhar uma repercussão grande.”

Segundo ela, a escola deve orientar estudantes e seus pais e promover a discussão entre o público e o privado. “Todo mundo tem sua opinião, mas deve saber avaliar até onde pode se expor.”

fonte: André Teixeira e Paulo Guilherme


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