‘Conciliador’, ‘apagador de incêndios’ ou ‘usurpador’? Quem é Michel Temer

'Conciliador', 'apagador de incêndios' ou 'usurpador'? Quem é Michel Temer

‘Conciliador’, ‘apagador de incêndios’ ou ‘usurpador’? Quem é Michel Temer

Novo presidente do Brasil tomou posse nesta quarta-feira (31), após a petista Dilma Rousseff ser afastada do cargo por um processo de impeachment

Ele já foi chamado de “charmosão” a “mordomo de filme de terror”. Escreve poemas em guardanapos e já foi descrito como professor “bonzinho” que não cobrava presença de alunos. Passa raspando por escândalos e até nas urnas, mas lidera o partido (PMDB) que, mesmo sem disputar uma eleição presidencial há mais de 20 anos, irá comandar o País mais uma vez.

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O julgamento pelo Senado do impeachment contra Dilma Rousseff levou Michel Temer, aos 75 anos, ao posto mais alto do País – ele foi empossado no Congresso pouco antes das 17h nesta quarta-feira (31).
Até dezembro de 2015, prevalecia a imagem cultivada por Temer em 34 anos de vida pública e alimentada por amigos e aliados: a do político “ponderado”, “formal”, “conciliador” e “tranquilo”.
A crise política, contudo, revelou aspectos diferentes da persona política do presidente da República, político conhecido como “esfinge” do PMDB.
O jogo mudou na histórica carta-desabafo dirigida a Dilma Rousseff após a abertura do processo de impeachment, em dezembro de 2015. No texto, em tom sentimental, ele lamentava a condição de “vice decorativo” e se dizia alvo de “desconfiança” e “menosprezo” do governo.
Se até então o peemedebista avançava casa a casa no xadrez do poder, o episódio foi um ponto fora da curva que marcou o afastamento de Temer do governo – e mostrou outra nuance da personalidade do então vice-presidente.
Criticado até dentro do PMDB pela carta, considerada por alguns “infantil” e “primária”, em 2016, Temer parece ter seguido a lição de seus próprios versos, como os do poema “Exposição”, publicado no livro “Anônima Intimidade” (2013).
“Escrever é expor-se / revelar sua capacidade / ou incapacidade / E sua intimidade / Nas linhas e entrelinhas / Não teria sido mais útil silenciar?”
Retomou, portanto, a atitude fria do político que acumulou prestígio atuando das portas dos gabinetes para dentro e se lançou na articulação do desembarque do PMDB do governo da ex-presidente Dilma, em março deste ano.
Vice no governo
Desde que assumiu a Presidência de forma interina, em 12 de maio, Temer demonstrou força no Congresso. Em um mês, obteve vitórias importantes, como a aprovação da redução da meta fiscal, que autorizou o governo a concluir 2016 com um deficit recorde de R$ 170,5 bilhões.
A Câmara dos Deputados também aprovou a prorrogação, até 2023, da DRU, dispositivo que autoriza a União a utilizar como quiser 30% da arrecadação.]As primeiras semanas, porém, foram também de turbulência. Temer foi alvo de críticas por montar um ministério sem mulheres ou minorias e com nomes citados na Operação Lava Jato. Perdeu três ministros desgastados por suspeitas – Romero Jucá (Planejamento), Fabiano Silveira (Transparência) e Henrique Alves (Turismo) –, sempre negando qualquer tentativa de obstruir as investigações.
Diante de forte reação do meio cultural, recuou da decisão de extinguir o Ministério da Cultura e obrigou ministros a se retratarem após declarações polêmicas – o titular da Saúde, Ricardo Barros, por exemplo, disse que era preciso repensar a dimensão do SUS (Sistema Único de Saúde).
A Lava Jato voltou a abalar o governo interino após o Ministério Público Federal pedir a prisão (negada pelo STF) de aliados peemedebistas de primeira hora de Temer, como Jucá, Eduardo Cunha, Renan Calheiros e José Sarney.
No front econômico, Temer agradou investidores ao indicar Henrique Meirelles para a Fazenda, Pedro Parente para a Petrobras e Maria Silvia Bastos Marques ao BNDES. Desde maio, o real se valorizou 8% e o Ibovespa, principal índice do mercado de ações do País, avançou quase 10%.
Mas há também quem diga que o presidente até agora fez muito pouco para enfrentar o rombo nas contas públicas do País, aprovando carência a Estados endividados com a União e aumentos ao funcionalismo público.
O peemedebista passou também a ser alvo de protestos de rua, que assumiram o mote #ForaTemer. Foi vaiado na abertura da Olimpíada, onde houve uma discussão legal sobre a liberdade de expressão dentro de arenas esportivas, e recebeu da presidente afastada a pecha de “golpista” e “usurpador”.
Segundo pesquisa da consultoria Ipsos, a gestão de Temer era aprovada em agosto por apenas 21% da população, ante 68% de reprovação. E 87% dos entrevistados consideram que o País está no rumo errado.]Origens
Em Btaaboura, vilarejo de 200 habitantes no norte do Líbano, a principal rua leva o nome de “Michel Tamer (sic), vice-presidente do Brasil”.
A família de Temer, de católicos maronitas, emigrou para o Brasil em 1925, fugindo dos problemas do pós-guerra. Comprou uma chácara em Tietê (SP), cidade de 40 mil habitantes entre Sorocaba e Piracicaba, e instalou uma máquina de beneficiamento de arroz e café.
Caçula temporão de oito irmãos, Temer nasceu e foi criado na área rural. Quando criança, passava férias na capital e era arrebatado pela metrópole. “Tinha a sensação que o mundo era São Paulo”, disse certa vez.
No primeiro ano colegial, ainda em Tietê, o adolescente ficou em recuperação (segunda época) em química e física e desistiu do chamado curso científico, que privilegiava ciências exatas e biológicas.
Em 1957, aos 16 anos, chegou a São Paulo, desta vez para terminar o colegial no curso clássico, com ênfase em humanas e letras. Fez o cursinho do professor Castelões, famoso preparatório para Direito, e ingressou na USP, seguindo o caminho de quatro irmãos mais velhos.
Envolveu-se com política logo no primeiro ano de universidade, quando se tornou segundo-tesoureiro do Centro Acadêmico 11 de Agosto. Prevalecia à época no movimento estudantil uma onda nacionalista, inspirada pela revolução cubana de Fidel Castro e o princípio da autodeterminação dos povosmas a faculdade do Largo São Francisco mantinha a tendência liberal]
Em 1962, já em meio ao clima que culminaria dois anos depois no golpe que depôs João Goulart, Temer foi candidato a presidente do CA – perdeu por 82 votos, mas inoculou-se do gosto pela política, que ficaria dormente durante a ditadura militar.
“Confesso que durante a faculdade fiz muita política acadêmica, então sobrava pouco tempo para estudar, embora estudasse para não ser reprovado”, disse Temer em vídeo publicado em seu canal no YouTube.
Academia e governo
Neutro diante do golpe (não apoiou nem combateu a mudança de governo), Temer passou o regime militar longe da vida política. Montou um escritório de advocacia e começou a dar aulas de Direito na PUC-SP.
Como professor, costumava dizer no primeiro dia de aulas que todos estavam aprovados. “Vamos combinar o seguinte: não tem lista de presença, vocês estão aprovados. Quem quiser frequenta a aula. Até se vocês não vierem, facilitam minha vida, porque vou ao escritório mais cedo trabalhar na advocacia”, afirmava.
No mestrado que coordenava na PUC, teve alunos que viriam a se tornar ministros do Supremo Tribunal Federal, como Luiz Edson Fachin e Carlos Ayres Britto. “Ele sempre foi sereno e conciliador por natureza”, disse Ayres Britto à BBC Brasil. “Tem uma vocação acadêmica muito forte, e nunca pensei que fosse incursionar pelo campo da política partidária.”
Em 1982, lançou Elementos de Direito Constitucional, livro que vendeu mais de 240 mil cópias, está na 24ª edição e até hoje é referência nas universidades.
“É uma obra bem primária, mas com valor didático. Não é inovadora. (Temer) não é considerado um grande teórico, mas um grande expositor”, avalia o jurista Dalmo Dallari, professor emérito da USP e crítico ao impeachment de Dilma.
No mesmo ano da publicação do livro, Temer foi convidado pelo governador eleito Franco Montoro, do recém-fundado PMDB, a assumir a Procuradoria-Geral do Estado. Montoro tinha sido professor da PUC e ambos haviam convivido na faculdade.
Era seu primeiro cargo público de relevo. “Eu tinha 41 anos e achava o máximo para a minha carreira ter mil procuradores sob meu comando”, disse Temer em 2010 à revista Piauí.
Meses depois, Michel Temer assumiria a Secretaria de Segurança Pública do Estado, substituindo o advogado José Carlos Dias, quem justamente havia sugerido Temer para a Procuradoria do Estado.
Eram tempos de redemocratização e agitação social, e a gestão ficou marcada por episódios em que o secretário negociou pessoalmente o fim de invasões de prédios públicos por estudantes e militantes sem-teto. Como realizações do período, ele costuma citar a criação das primeiras delegacias de defesa da mulher e de direitos autorais do País.
O secretário, contudo, conviveu com aumento nos índices de criminalidade e sofreu oposição da associação de delegados, que chegou a pedir sua demissão.
Em 1985, também se envolveu em polêmica ao citar a pornografia como um fator responsável pela violência no Estado, conforme relatou o jornal “Folha de S.Paulo”.
“A divulgação do chamado sexo explícito, tanto no cinema quanto em meios escritos, atua como elemento de incentivo ao crime, já que essas mensagens atingem, sobretudo, as pessoas carentes, econômica e emocionalmente”, afirmou Temer à época.
Eleições
Por sugestão de Montoro, Temer candidatou-se a deputado federal pelo PMDB em 1986. Com 43.747 votos, ficou como suplente, mas assumiu o cargo no ano seguinte e participou da Assembleia Constituinte.
Naquelas discussões, opôs-se à emenda popular da reforma agrária (“permitiria a desapropriação indiscriminada de terras”) e ao voto aos 16 anos – algo que, segundo ele, abriria margem para reduzir a maioridade penal. Ajudou a aprovar projetos como o dos juizados de pequenas causas, do Código de Defesa do Consumidor e a extensão do voto a cabos e soldados.
Em 1990, em outra candidatura à Câmara dos Deputados, saiu com 32.024 votos e uma nova suplência. Logo seria convidado a “apagar um incêndio”, algo que se repetiria ao longo da carreira política.
Em outubro de 1992, assumiu novamente a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, desta vez por convite de Luiz Antônio Fleury Filho (à época no PMDB), uma semana após o massacre do Carandiru, quando 111 presos foram mortos pela Polícia Militar.
“É organizado. Delegava para pessoas de absoluta confiança. Nada escapava dele e tomava providências”, disse à BBC Paulo de Tarso Mendonça, que foi adjunto de Temer na pasta.
Ao final da passagem pela secretaria, assumiu o mandato de deputado federal. Seria reeleito em 1994, com 70.968 votos, e multiplicaria a votação nos pleitos seguintes: 206.154 em 1998, 252.229 em 2002.
Anos tucanos
Os anos do governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) foram o auge de Temer nas urnas para eleições legislativas – em 2006, sua última eleição ao Congresso, obteve 99 mil votos e só entrou pelas sobras do quociente eleitoral. Também marcaram sua rápida ascensão dentro do PMDB.
Eleito líder do partido duas vezes, chegou à Presidência da Câmara pela primeira vez em 1997, com apoio do governo FHC, costurado mediante promessa dos votos de parte do PMDB à emenda da reeleição. Arranjo parecido se deu em sua segunda eleição ao comando da Casa, que se deu após o PMDB apoiar informalmente a reeleição de FHC.
No primeiro dos quatro volumes do livro Diários da Presidência, lançado em 2015 e que reúne relatos de Fernando Henrique Cardoso sobre os dois primeiros anos de seu governo (1995-1996), o ex-presidente reclama do “toma lá, dá cá” com o Congresso e demonstra desconforto com a ação do então deputado federal durante a discussão da reforma administrativa.
“E para ser mais solidário com o governo, ele (Temer) quer também alguma achega pessoal nessa questão de nomeações. É sempre assim. Temer é dos mais discretos, mas eles não escapam. Todos têm, naturalmente, seus interesses”, relata FHC no livro.
Comumente descrito por aliados como “sereno”, “tranquilo” e “conciliador”, Temer teve raras rusgas políticas em público. Uma delas foi em 1999, quando entrou em rota de colisão com o então presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães (então no PFL, atual DEM), por divergências em torno da reforma do Judiciário.
No bate-boca, que chegou a paralisar o Congresso, ACM disse que Temer tinha “pose de mordomo de filme de terror” e insinuou o envolvimento do colega em irregularidades no Porto de Santos, para o qual o peemedebista havia feito indicações políticas.
“Quem atravessou a praça dos Três Poderes para pedir ao presidente da República que ajudasse um banco falido não fui eu”, rebateu Temer, em referência à ação de ACM em favor do hoje extinto Banco Econômico.
Desde 2001, Temer articula um amplo leque de interesses e líderes regionais como presidente nacional do PMDB – o maior partido do País, com 69 deputados federais, 18 senadores, 996 prefeitos e sete governadores (RO, RJ, RS, AL, SE, ES e TO), de Estados que somam 23% do PIB nacional.
Na eleição de 2002, Temer endossou o apoio do PMDB à candidatura presidencial de José Serra (PSDB) e chegou a ser cogitado para ser vice da chapa – posto que acabou com Rita Camata.
No primeiro governo Luiz Inácio Lula da Silva, manteve-se no grupo do PMDB da Câmara identificado como oposição, enquanto Lula apostava no PMDB do Senado, de Renan Calheiros e José Sarney.
Anos petistas
Os primeiros anos da era Lula foram magros para Temer. Distanciou-se do centro do poder em Brasília, perdeu cargos na Mesa Diretora da Câmara e indicações em estatais. Em 2004, candidatou-se à vice-prefeito de Luiza Erundina e a chapa amargou um quarto lugar, com 4% dos votos.
O cenário começou a mudar em 2005-06, após a maior crise do governo Lula, a do mensalão, esquema ilegal de financiamento político organizado pelo PT para garantir votos no Congresso. O PMDB negociou apoio ao presidente e passou a integrar formalmente o governo em 2007, ampliando sua fatia em ministérios e estatais.
Em acordo semelhante ao fechado com o PSDB nos anos FHC, o PMDB defendeu a eleição do PT à Presidência da Câmara no biênio 2007-2009, em troca do poder no período seguinte – em 2009, Temer assumiu a direção da Casa pela terceira vez.
Naquele mesmo ano, Temer foi citado na operação Castelo de Areia, que investigou um suposto esquema de financiamento político ilegal pela construtora Camargo Corrêa – hoje envolvida na Operação Lava Jato.
O nome do peemedebista apareceu em um documento com 54 planilhas, apreendido na casa de um executivo da construtora, que sugeriria uma contabilidade paralela da empresa. Era citado 21 vezes, entre 1996 e 1998, ao lado de quantias que somavam US$ 345 mil (R$ 1,2 milhão, em valores de hoje).
A operação acabou anulada pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça) por irregularidades na coleta de provas, e Temer sempre rechaçou as suspeitas.
Outra menção ao presidente veio à tona em junho deste ano, na delação do ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, que disse que Temer lhe pedira recursos ilícitos para a campanha de Gabriel Chalita à Prefeitura de São Paulo em 2012.
Recentemente, o ex-senador Delcídio do Amaral (ex-PT, sem partido) implicou o vice-presidente em delação premiada dentro das investigações da Operação Lava Jato. Disse que Temer teve participação direta na indicação de dois executivos da Petrobras que acabaram presos por desvios na estatal – o peemedebista se disse “indignado” e negou as afirmações.
“O contexto da conversa deixava claro que o que Michel Temer estava ajustando com o depoente (Sérgio Machado) era que este solicitasse recursos ilícitos das empresas que tinham contratos com a Transpetro na forma de doação oficial para a campanha de Chalita”, dizia trecho da delação. Temer negou ter pedido doação e afirmou que a versão é “absolutamente inverídica”.
No Planalto
Em 2010, Temer foi convocado mais uma vez ao papel de bombeiro: desta vez para garantir a estabilidade do sistema político como vice na chapa de Dilma Rousseff. O deputado unia em torno de si um partido historicamente dividido, e com um discurso que buscava superar a fama de fisiologismo da sigla.
“Antigamente o PMDB entrava na eleição dividido para depois negociar apoio ao governo eleito, por isso era chamado de fisiologista pela imprensa. Mas isso acabou. Estamos entrando na campanha juntos e governaremos juntos”, dizia às vésperas do anúncio da aliança na chapa.
Na campanha de 2010, Temer ficou praticamente de fora dos programas e propagandas eleitorais – apareceu no rádio e na TV apenas no segundo turno.
Já como inquilino do Palácio do Jaburu, a residência oficial do vice-presidente, reforçou a discrição, segundo um ex-assessor. Recusava muitos pedidos de entrevista, mas conversava (e ainda fala) diretamente com colunistas com quem tem relação mais antiga.
“Ele leva em consideração o que o assessor fala. Nunca o vi com raiva ou perdendo a compostura, mas mostra quando está irritado. Quem conhece percebe pela fisionomia e tom de voz”, disse o ex-assessor.
‘Charmosão’
Aos 75 anos, Temer está no terceiro casamento, com Marcela Temer, ex-modelo e bacharel em direito de 32 anos e 1,72 metro – 2 cm a mais que o marido. Ambos possuem um filho de sete anos, Michel Temer Filho, o Michelzinho.
Eles se conheceram em 2002, durante a campanha eleitoral. O pai dela, um economista conhecido de políticos de Paulínia (SP), cidade de 100 mil habitantes na região de Campinas, sugeriu que fossem cumprimentar o prefeito – e o então candidato a deputado federal Temer estava por lá.]
O namoro – o primeiro de Marcela – começou logo após o primeiro encontro, quando recebeu uma ligação do deputado. “Ele começou a gritar: ‘te amo’, ‘te amo’, ‘te amo'”, disse Marcela na entrevista de 2010. Casaram-se quatro meses depois.”Era um contato profissional que poderia me ajudar a dar um up na carreira (de modelo). Mas achei ele charmosão”, disse Marcela numa rara entrevista de 2010 à revista TPM. Depois da eleição, o pai de Marcela sugeriu que enviasse um e-mail ao deputado eleito parabenizando-o pelo resultado.
Além de Michelzinho, Temer possui três filhas do primeiro casamento – Luciana, secretária de Assistência Social da Prefeitura de São Paulo, Maristela e Clarissa, psicólogas e psicanalistas – todas na casa dos 40 anos. Tem ainda um filho de 16 anos, fruto de um relacionamento com uma jornalista de Brasília.
O novo presidente é ainda o integrante (embora pouco ativo) mais ilustre do País da maçonaria, a instituição cercada de mistérios e códigos que já teve protagonismo político no passado, mas hoje possui finalidades basicamente filantrópicas e de relacionamento interpessoal.
Desembarque
De volta a seu relacionamento com o governo petista, os sinais mais nítidos de desgaste na relação com o Planalto começaram em 2013.
Naquele ano, Temer bancou, contra a vontade do Planalto, a eleição de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) para liderança do PMDB na Câmara. Mais tarde, após as manifestações de 2013, disse que a ideia de uma Assembleia Constituinte exclusiva para a reforma política, uma das propostas de Dilma diante dos protestos, era “inviável”.
Na ocasião, o então vice disse ainda acreditar que os protestos não pediam a renovação dos políticos, mas do sistema político. “Esse movimento não foi contra os políticos A, B ou C. Se fôssemos nessa linha, todos os Legislativos e Executivos tinham que sair de seus postos.”
A tensão se reduziu na campanha da reeleição em 2014. Temer subiu em palanques com Dilma pelo País e foi o primeiro a ser citado pela presidente no pronunciamento após a vitória. “Depois de ter sido um grande vice, se transformou num incansável e aguerrido militante, fervoroso militante, que andou o Brasil defendendo o nosso projeto, nossas propostas e nosso governo”, afirmou Dilma.
Meses depois, Temer ensaiou mais uma vez o papel de “bombeiro”. Assumiu a articulação política do governo em abril, mas deixou a função quatro meses depois, no final de agosto.Em 2015, diante do agravamento da crise política e econômica, PMDB e PT divergiram na eleição à presidência da Câmara. Temer e seu partido defenderam a candidatura vencedora de Eduardo Cunha.
Poucas semanas antes da saída, concedeu uma inusual entrevista na qual, nervoso, disse que o País precisava de “alguém (que) tenha a capacidade de reunificar a todos”. A interpretação corrente foi que o vice se lançara como alternativa política porque a alternativa do impeachment se tornara real.
Meses depois veio a carta à Dilma, cujo tom sentimental contrariava a postura do político cerebral muitas vezes classificado como esfinge – segundo o Houaiss: “pessoa enigmática, que pouco se manifesta e de quem não se sabe o que pensa ou sente”.
O impeachment esfriou no começo de 2016 e Temer deu a impressão de recuo. Mas a situação de Dilma se agravou com a delação de Delcídio do Amaral e as investigações sobre Lula, e Temer passou a liderar a articulação pela saída do PMDB do governo, que ampliou o isolamento da gestão Dilma Rousseff.
Assume agora a Presidência de maneira definitiva, em meio a maior crise econômica em décadas – o PIB acumula seis trimestres consecutivos de retração – e na esteira de um processo institucional que já classificou como “peça de Primeiro Mundo”, como declarou em 1992, em referência ao caso Fernando Collor, em entrevista ao apresentador Clodovil (1937-2009).
“O chamado impeachment não é uma peça de país de Terceiro Mundo. A peça dos países de Terceiro, Segundo Mundo é o golpe de Estado. E nós aqui fizemos funcionar todas as nossas instituições regularmente. (…) Esse é um exemplo que ficou.”
Fonte: Último Segundo/Brasil/Política//BBC BRASIL


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