No Canil da PM, a expressão “melhor amigo do homem” adquire mais intensidade

No Canil da PM, a expressão “melhor amigo do homem” adquire mais intensidade

No Canil da PM, a expressão “melhor amigo do homem” adquire mais intensidade

Amizade, confiança, lealdade e coragem são os valores que os Policiais e cães do Canil da PM praticam diariamente. Algo raro de ser visto nos dias atuais

Há algumas semanas, tive o privilégio de receber um convite do Comando do Policiamento de Choque da Polícia Militar de São Paulo para conhecer o Batalhão de Choque responsável pelo Canil Central, e acompanhar de perto as atividades desenvolvidas pelos cachorros, desde o policiamento ostensivo até a busca de explosivos, entorpecentes e pessoas desaparecidas.

O cão e o Policial Militar não são apenas uma dupla de servidores que aplica a lei com frieza. O incrível serviço que prestam à nossa população é baseado numa incondicional ligação de amor, lealdade, confiança e cumplicidade, valores difíceis de se encontrar nos dias de hoje, recheados de escândalos, mentiras e roubos praticados pelos políticos que nós elegemos. Quando terminei essa visita a esta unidade do Batalhão de Choque , o merecido título que os cães possuem de “melhor amigo do homem” ganhou dimensões mais profundas para mim.
As três curtas histórias abaixo, refletem com exatidão o espirito do Canil da nossa Polícia Militar. Na sequencia, você irá conhecer em detalhes seu funcionamento.
Shelton e Sargento PM Cláudia Aparecia Ignácio Vieira
Após horas de intensas buscas no prédio abandonado, os policiais não conseguiam localizar as drogas ilegais escondidas pelos traficantes detidos. A situação era frustrante já que os suspeitos, conhecidos de longa data pela Polícia, iriam novamente se safar de uma longa temporada na cadeia, por falta de provas. Foi nesse momento que a Cabo PM Cláudia e seu parceiro, um labrador chocolate de nome Shelton da Polícia Militar, entraram em ação. Os dois ingressaram no prédio e em pouco tempo Shelton localizou o esconderijo contendo uma enorme quantidade de entorpecentes.  Quatro anos mais tarde em 2012 , após prestar muitos serviços à população paulista e ajudar a colocar inúmeros criminosos na cadeia, Shelton se aposentou e foi morar na casa da sua parceira Cláudia. Há algumas semanas, a atual Sargento PM Cláudia, que agora é enfermeira  veterinária no Canil Central da Polícia Militar, me contou essa história. Há 22 anos na PM e 15 no Canil, ela disse que em todo esse tempo recusou algumas chances de avançar na carreira, pois isso implicaria em se afastar do convívio diário de seu cão, algo totalmente fora de questão. Ao perguntar como estava seu cão, ela me deu um sorriso triste e disse que ele havia morrido há menos de uma semana, de velhice.
Marley é um Labrador de sete anos e oito meses que tem como parceiro de patrulhamento o Cabo PM Gilson Alves. Ambos são responsáveis por localizar e constatar a presença de explosivos e também fazer varreduras preventivas em locais que possam apresentar algum risco para a população, ou que autoridades irão estar presentes. Marley tem sete anos e oito meses de idade e sua última missão será em março, quando irá se aposentar. Mais alguns meses e o Cabo Alves, após 29 anos de serviços na Polícia Militar,  também se aposentará. Obviamente os dois vão morar juntos. “Será um privilégio ter em casa esse grande parceiro, que aqui no Quartel é minha ferramenta de trabalho. Minha família está muito feliz com a notícia”. O Policial já tem outros dois cães da raça Pastor Alemão e acredita que o novo amigo será bem recebido. “O Marley se dá bem com todo mundo.” O Cabo PM Alves afirma que, mesmo aposentado, Marley continuará fazendo exercícios físicos diários para manter sua excepcional forma física. “Ele será meu parceiro de pesca. Enquanto pesco, ele fica nadando, que é uma atividade que ele adora!”.
A carreira do Capitão PM Alexandre Farrath Júnior, atual Comandante do Canil da Polícia Militar, se confunde com a história do próprio Canil. O pai dele, Coronel da Reserva Alexandre Farrath, também serviu como Policial no Canil desde 1970, e ainda como Capitão, como seu filho, foi seu Comandante de 1979 a 1981. “Quando meu pai trabalhava no Canil eu era criança e ele sempre me trazia aqui. Cresci neste local e, desde cedo, fiz muitas amizades com os Policiais do Canil”, lembra o Capitão PM Farrath Júnior. Em 1998, logo depois de sair da Academia de Polícia Militar do Barro Branco, o então Segundo Tenente PM Farrath foi direto para o Canil Central de São Paulo. “Foi incrível ter o privilégio de trabalhar e comandar os mesmos Policiais que me conheceram aqui no Canil, ainda como uma criança”. Em 2013, já promovido a Capitão, Farrath recebeu o convite para comandar o Canil Central. “Qualquer capitão da Polícia Militar está habilitado para comandar o Canil, mas tive a sorte de passar a infância aqui e voltar para cá como Policial logo depois que me formei na Academia, isso me deu muita experiência e com certeza me ajudou a conseguir este Comando. Vejo o Canil como um dos serviços mais importantes que a Polícia Militar tem. E não é porque eu estou aqui. As corporações policiais do mundo inteiro empregam cães. Se você for a qualquer país, desenvolvido ou subdesenvolvido, eles dão uma grande importância para os cães, desde o patrulhamento ostensivo em aeroportos e áreas públicas de interesse, até aquele serviço que a gente acaba não vendo, que é a investigação”.
Conheça os detalhes do Canil Central; da PM de São Paulo na entrevista abaixo feita com o Comandante Capitão PM Alexandre Farrath Júnior, o Subcomandante Tenente PM João Armando Aun Fioravante e o Comandante de Pelotão com cães Tenente PM Luiz Paulo Codelo.

Por que as unidades policiais que usam cachorros são chamadas de K-9?
Essa nomenclatura nasceu com a Polícia dos Estados Unidos. As unidades caninas de lá são chamadas de “Canine Units”. Algum Policial americano percebeu que a palavra “canine” possuia exatamente a mesma pronuncia que a junção da letra “K” com número “9”, (quando falados em inglês). O apelido pegou, e quase todas as forças policiais caninas do mundo chamam suas unidades de K-9.

Qual a função do cão na Policia Militar?
As atividades do cão da PM são duas: policiamento e faro. Os cães de policiamento possuem duas funções principais: dissuasão e dispersão. Quando o criminoso se depara com um Policial Militar segurando um cão ele se sente intimidado e com medo, a presença do cão significa perigo imediato. O cão diminui muito a probabilidade de resistência e fuga do meliante e consequentemente a situação de crise é contida com facilidade. Os cães de policiamento são sempre muito respeitados. Nunca houve um caso de agressão a eles, não pelo fato do criminoso sentir pena ou empatia pelo animal, mas por puro medo. A forma como usamos o cão é bastante pensada, não  o colocamos em cena se ele não for útil para a situação ou se houver algum risco. Já os cães de faro são treinados para distinguir um odor específico, como de entorpecentes e explosivos. O animal é treinado para que se sente ou deite ao lado do material, sem tocá-lo. No caso de localização de explosivos o Grupo de Ações Táticas Especiais (GATE), uma tropa de elite da PM especializada, entre outras atividades, em lidar com bombas, é chamada para tomar as providências necessárias com o apoio dos cães do Canil Central. Outro serviço prestado pelos cães de faro é o de busca por pessoas, atividade que geralmente é feita pela raça Bloodhound. Se um suspeito em fuga abandona seu carro e entra numa mata fechada, nossos Policiais passam gaze no volante do veículo para coletar o odor das mãos do indivíduo e dão para o cachorro ter a referência do que farejar. Em seguida a busca é iniciada, sempre com altíssimo grau de sucesso. Outra situação é de pessoas que se perderam. Geralmente os familiares cedem uma peça de roupa do desaparecido para que o cão possa fazer o trabalho de localização.
cão também é usado para morder?
Sim, mas esta é uma situação raríssima. O policiamento preventivo e o farejamento são as únicas atividades que 99,9% dos nossos cães vão executar em toda sua carreira. Apenas em último caso, em situações extremas, é que o cão recebe ordem para morder, uma opção de enfrentamento não letal que preserva a vida do criminoso. O cão é treinado para não dar múltiplas mordidas, apenas uma e em áreas não letais do corpo. Em seguida, o Policial afasta o cão, e efetua a prisão.

Quantos cães trabalham na Polícia Militar?
O estado de São Paulo possui 25 Canis. Aqui, no Central, temos 37 cães na ativa, mas no total são cerca de 300. Além de servir de base operacional para as missões na cidade de São Paulo, o Canil Central é onde acontecem todos os cursos de especialização, atualização e reciclagem dos Policiais de todos os canis do estado. É aqui também que fica nosso centro veterinário.

Quais são as raças de cães que a PM usa?
Temos amimais de seis raças: Pastor Alemão, Pastor Holandês, Pastor Belga Malinois, Rottweiler, Bloodhound e Labrador. Procuramos dividir as missões de cada raça de acordo com suas habilidades específicas, como: faro, resistência, inteligência, agressividade, etc… Um Labrador, por exemplo, não é indicado para fazer policiamento ostensivo, porque geralmente não possui a agressividade necessária. Normalmente usamos o Labrador para farejar entorpecentes e explosivos. Já o Pastor Belga Malinois é utilizado para policiamento e também faro. O Bloodhound tem aptidão para busca de pessoas.
Com que idade os cães são recrutados?
O processo começa antes dos filhotes nascerem. Nossos veterinários acompanham de perto e constantemente as características físicas e comportamentais dos nossos cães antes de fazerem o cruzamento. Pai e mãe são escolhidos a dedo, porque eles acabam transmitindo para os filhotes suas características. Assim que nascem, os cãezinhos vão para a maternidade e ficam lá até os quatro meses de idade, onde fazemos a seleção e identificamos suas aptidões individuais. Nessa fase, até que tenham tomado as vacinas recomendadas, os filhotes são impedidos de ter contato com cães adultos, com exceção da mãe. Até a entrada de pessoas é restrita, para não levar nenhum tipo de doença da rua.

E como são identificadas essas aptidões e feita a seleção dos recrutas?
Já na maternidade iniciamos os primeiros estímulos de treinamento através de brincadeiras e observamos as reações dos cãezinhos. Por exemplo, quando o filhote começa a se alimentar com ração, começamos a testar sua capacidade de faro escondendo um pouco de comida e acompanhando seu interesse em procurar. Outra avaliação que fazemos é brincar com o filhote nos vários tipos de solo que ele vai se deparar quando sair para o policiamento, como pedras, grama, asfalto e poças d’água. Também procuramos acostumar os cãezinhos desde cedo com ruídos para que no futuro não se assustem com o barulho de tiros e bombas. Fazemos isso de forma bem gradual para que se habituem aos poucos, primeiro com ruídos de latas, depois estourando uma biribinha, uma bomba um pouco mais forte até chegar a um tiro de festim. Com o tempo nossos adestradores percebem se o cão é muito brincalhão, se é disperso, se tem medo, se tem interesse em localizar um objeto que goste e dessa forma, conseguem identificar quais estão aptos para trabalhar na PM. Com a aplicação de técnicas apuradas, nosso pessoal aproveita de 70% a 80% de uma ninhada com oito ou nove filhotes.
Depois que o cão sai da maternidade, como prossegue seu treinamento?
No passado, parte do treinamento era feito com o uso da punição, ou seja, o cão obedecia por causa do desconforto. Como exemplo, para que o cão sentasse, o Policial puxava a guia da coleira e o animal obedecia. Hoje isso mudou radicalmente, tudo é feito com base na psicologia comportamental, ou seja, pelo método indutivo e não punitivo. Todo acerto é estimulado e recompensado com brincadeiras e petiscos, transformando o treinamento numa diversão para o animal. A preparação dos cachorros que farão o policiamento ostensivo, aqueles que ajudam nas abordagens policiais e na contenção de tumultos, leva cerca de um ano e meio. Os de faro, treinados para localizar drogas, explosivos e pessoas, demora um pouco mais: aproximadamente dois anos. Apesar da precisão e do grau de excelência na preparação, o treino não é pesado, não há insistência nas tarefas, elas são desenvolvidas aos poucos, para que seja uma diversão e não um estresse para o animal. Tipicamente cada atividade dura cerca de vinte minutos seguidos por um descanso e repetido ao longo do dia. O objetivo é sempre parar o treinamento diário no auge, quando o cão estiver mais responsivo aos comandos.
Os cães farejadores são viciados em substancias tóxicas?
Sempre temos bastante paciência e tranquilidade para desmentir esse mito. Durante toda a vida dos nossos cães, eles não tem nenhum tipo de contato com a droga, seja no treinamento ou em suas missões. Toda nossa doutrina de treino se baseia na associação e é desenvolvida da seguinte forma: usamos um painel com vários buracos e em um deles colocamos um brinquedo, como uma bolinha. O cão é treinado para achar o buraco correto e indica-lo para o Policial. Essa bolinha é então substituída por outro objeto que contém o componente químico a base da droga ou do explosivo. Quando o cão passar pelo orifício que está a substância, o Policial sinaliza o acerto e o animal é recompensado. É assim que ele aprende, por associação e recompensa, nunca ingerindo ou tendo contato com a substancia.

É verdade que um cão não gosta de sair em patrulha com outro Policial que não seja seu adestrador?
Sim, evitamos esta situação ao máximo. Os laços e particularidades criados entre o Policial adestrador e seu cão são muito fortes e os melhores resultados operacionais são atingidos quando os dois estão juntos. Quando o PM adestrador sai de férias, procuramos substitui-lo por outro Policial que tenha muita proximidade e amizade com ele e que conheça de perto seu cão, para poder fazer a manutenção e treinamentos sem muitas dificuldades. Sair em patrulha de rua, só se não tiver nenhuma outra alternativa. A ligação entre o cão e seu adestrador é tão forte, que um sabe qual o estado físico e emocional do outro, apenas pelo olhar e expressão. É algo muito forte e bem particular.
Como é a aposentadoria de um cão da PM?
Como todo trabalhador, o cão precisa se aposentar depois de cumprir inúmeras missões. Nossos cães se aposentam com oito anos de idade, no auge de sua forma, para que possa passar mais alguns anos na inatividade, aproveitando a nova fase de sua vida. Momento triste? Muito pelo contrário! Isso porque nossa norma interna determina que o Policial Militar que passou maior tempo com aquele cão, tem prioridade de ficar com o animal e leva-lo para casa em função do vínculo afetivo criado entre os dois.
Há casos de cães que ficam no canil mesmo depois de se aposentarem?
É raro, mas acontece. Mantemos alguns cães aposentados aqui no Canil, quando apresentam algum problema de saúde mais serio ou porque se dão bem com o policial, mas não com a família dele. Temos um cão aqui que é diabético que precisa tomar remédio todos os dias e aqui estamos seguros que ele será medicado e acompanhado pelos nossos veterinários.
A fila de policiais que querem trabalhar no canil é muito grande?
Trabalhar no Canil da PM é um privilégio. Temos uma lista de aproximadamente 80 Policiais Militares que querem fazer parte da nossa tropa. O interessado marca uma entrevista aqui com algum dos oficiais. Essa ficha é remetida para o setor de investigação do batalhão, que faz um levantamento da vida do Policial na unidade que ele serve. Se ele for aprovado, entra nessa fila e assim que tiver oportunidade vem para cá.
Fonte: Último Segundo/Brasil/Ig. São Paulo


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